Cintia Gonçalves, da Suno: ‘Quem não estiver construindo presença em GEO perderá relevância’
Divulgação

Débora Yuri - UOL para Marcas
Do supermercado ao “concierge inteligente”. Num momento de explosão das buscas por inteligência artificial generativa, a definição para a passagem do SEO (Search Engine Optimization) ao GEO (Generative Engine Optimization) é de Cintia Gonçalves, sócia da agência Suno United Creators e fundadora da consultoria estratégica Wiz&Watcher.
Para o setor, a mudança não é apenas tecnológica, mas principalmente no modo como os consumidores se relacionam com as marcas, diz a publicitária.
“Vamos pensar no SEO tradicional como um supermercado. As pessoas iam até lá, passeavam entre as prateleiras de opções e as marcas disputavam a atenção. Aquelas que estivessem na altura dos olhos — ou as que apareciam primeiro na lista de indicações do Google — tinham mais chance de ser escolhidas ou clicadas.
Já o GEO opera em uma lógica de concierge inteligente: o consumidor faz uma pergunta complexa e contextualizada, e a IA generativa entrega uma resposta pronta, com recomendação, justificativa e, frequentemente, o link direto para contratar ou comprar.”
Do SEO para o GEO: momento de transição entre eras
Estudos apontam para uma transformação acelerada. Segundo o relatório Digital 2026, da We Are Social/Hootsuite, 41% dos usuários de internet globais já usam ferramentas de IA generativa como fonte primária de informação, um salto de 18% em relação ao ano passado.
No Brasil, o índice sobe para 47%, impulsionado pela popularidade do WhatsApp com IA integrada.
Gonçalves compartilha três insights centrais sobre essa espécie de transição entre eras.
1- A pergunta mudou.
Se o usuário digitava “melhor tênis de corrida” no SEO, no GEO ele pergunta: “Sou corredor amador, tenho joelho sensível, corro em asfalto e meu orçamento é R$ 600. Qual tênis você recomenda e por quê?”.
“A IA não lista opções, ela escolhe e justifica. Sua marca precisa estar preparada para ser essa resposta, nesse nível de granularidade”, resume.
2- A métrica mudou.
O KPI deixou de ser apenas lugar no ranking ou CTR (click through rate). O indicador que emerge é o Citation Rate, já alçado ao posto de métrica de negócio — com qual frequência e em qual posição a marca é citada por IAs em respostas relevantes para o negócio.
Estudo da Gartner deste ano indica que 68% das jornadas de compra B2B já começam com uma resposta de IA generativa, não busca tradicional. Outro levantamento de 2026, este do Boston Consulting Group com 200 marcas globais, mostra que cada 10 pontos percentuais de avanço no Citation Rate correlaciona-se com um aumento médio de 7% na consideração de compra.
Marcas no quartil superior do indicador registraram crescimento de receita 2,3 vezes superior às do quartil inferior.
3- A autoridade mudou.
“No GEO, autoridade se constrói com evidências estruturadas: dados verificáveis, estudos de caso com números, certificações auditadas, depoimentos contextualizados. A IA não se impressiona com a idade do seu domínio, ela quer saber se você tem provas.”
De acordo com o relatório The State of Generative Engine Optimization 2026, da Forrester, marcas que adaptaram seu conteúdo para GEO tiveram crescimento médio de 47% em citações por IAs nos primeiros 12 meses.
No mesmo período, as que mantiveram apenas estratégias de SEO perderam 23% de visibilidade em respostas dos sistemas.
Top of context, o novo top of mind
A consultora destaca também que “top of context” virou o novo “top of mind”. E a diferença é profunda, acrescenta: ser lembrado espontaneamente quando alguém pensa em uma categoria envolve um jogo de exposição massiva, repetição e presença, que funcionou por décadas. No novo cenário, porém, ele tem uma limitação: ser genérico.
“Você pode ser a marca de refrigerante mais lembrada do país, mas isso não ajuda quando o consumidor pergunta à IA: ‘Qual bebida sem açúcar, com menos de 50 calorias e sabor cítrico combina com uma refeição leve de verão?’. Top of context significa ser a marca que a IA escolhe quando o prompt é específico, situacional e detalhado. É um jogo de relevância, não de presença massiva.”
Como criar conteúdo recomendado por modelos de IA
Para alcançar o top of context, as marcas precisam adotar três comportamentos fundamentais, segundo Gonçalves.
1- Mapear os “prompts de decisão” do setor.
Não adianta otimizar para palavras-chave genéricas. É preciso identificar as perguntas que levam à decisão de compra no mercado específico da marca. Ela dá exemplos reais: Qual tênis dura mais para quem trabalha 12 horas por dia em pé em piso de hospital? Como uma PME de 30 funcionários pode reduzir custos com maquininha sem perder confiança?
“Um case que ilustra bem é o da Nike, que mapeou 120 cenários de uso para tênis de corrida e criou conteúdo específico para cada um, desde ‘corrida em asfalto com joelho sensível’ até ‘primeira maratona em clima tropical’. O resultado, segundo a McKinsey: aumento de 57% em citações por IAs em recomendações de calçados esportivos.”
2- Criar conteúdo que responda essas perguntas com profundidade.
A IA busca dados comparativos, especificações técnicas contextualizadas, casos reais com resultados mensuráveis e limitações honestas. “Sim, admiti-las aumenta a confiabilidade algorítmica”, afirma a estrategista.
3- Estruturar esse conteúdo para ser “citável”.
Ignorar a estrutura dos dados é um dos principais erros da atualidade, ela ressalta. “Muitas marcas têm conteúdo excelente, mas em formatos que a IA não consegue processar bem: PDFs não indexáveis, imagens sem texto alternativo, tabelas em formato de imagem, informações críticas diluídas em parágrafos longos.”
As ferramentas precisam de dados estruturados: tabelas comparativas claras, FAQs com perguntas idênticas às que clientes reais fazem e formatos que máquinas processam facilmente — além de atualização constante. “Sem isso, mesmo o melhor conteúdo fica invisível. E conteúdo desatualizado é ignorado ou, pior, pode jogar contra”, diz.
“Neste ano, a Forrester analisou 10.000 respostas de inteligência artificial e descobriu que 78% das citações vinham de tabelas, FAQs, comparativos. A IA busca profundidade, especificidade e evidências.”
Confiança, humanização dos dados e a IA que alucina
A adoção da tecnologia também impacta a maneira de construir confiança de marca. Como a IA generativa pode “alucinar” — inventar informações, recomendar algo perigoso —, os modelos são treinados para priorizar fontes com baixo risco de desinformação, explica a sócia da Suno.
Dados auditados por terceiros, certificações reconhecidas, metodologias transparentes e histórico consistente de precisão reduzem esse risco.
“Confiança, para a IA, não é um valor aspiracional, é um critério de seleção algorítmica. Ela não se impressiona com slogans. Ela não se emociona com campanhas. Mas ela reconhece padrões de confiança.”
Outro conceito-chave é o da “humanidade verificável”, já que os sistemas valorizam reviews que contam histórias específicas.
“O tempo de ‘observar a IA’ acabou. Quem não estiver ativamente construindo sua presença em GEO nos próximos 12-18 meses perderá relevância em um canal que já representa mais de 40% das jornadas de descoberta.”
Fator Brasil traz desafios às marcas globais
O contexto Brasil muda algo para marcas globais? A publicitária é categórica na resposta: “Muda, e muito”. As particularidades do país vão do app usado por 99% da população conectada ao “jeitinho brasileiro”.
1- O WhatsApp como superapp de IA.
No segundo maior mercado do WhatsApp no mundo, a integração de IA generativa na plataforma está transformando o comportamento de busca. Ao contrário de países onde ela ocorre em interfaces dedicadas — ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity —, por aqui ela fica cada vez mais embutida na conversa cotidiana.
“Isso significa que marcas globais precisam adaptar sua estratégia de GEO para um ambiente onde a busca é conversacional, fragmentada e profundamente contextual”, explica Gonçalves.
2- O “jeitinho” encontra a IA.
O consumidor brasileiro é criativo, adaptável e social, ela observa.
“Ele não pergunta ‘Qual o melhor plano de celular?’, e sim ‘Qual plano não me deixa na mão quando acaba a franquia e ainda funciona no metrô?’. Marcas globais que tratam o Brasil com conteúdo genérico traduzido perdem feio para aquelas que entendem a granularidade do contexto local.”
3- Confiança é um ativo ainda mais crítico.
O país tem um dos índices mais altos de desconfiança institucional do mundo, revela o Edelman Trust Barometer 2026. Ao mesmo tempo, é um dos líderes no quesito confiança em “pessoas como eu”.
Daí nasce uma dinâmica única: quando alimentada com provas sociais autênticas — depoimentos, casos reais, reviews contextualizados —, a IA generativa pode se tornar uma ponte de confiança que a publicidade convencional não consegue construir.
4- Oportunidade em setores com baixa maturidade digital.
Com presença digital subotimizada no Brasil, setores como agronegócio, indústria de base e serviços financeiros tradicionais oferecem uma janela de oportunidade para quem implementar estratégias de GEO efetivas antes dos concorrentes locais.
Quem é o dono do tema IA & Marca?
Para a consultora, outro erro comum é tratar GEO como “SEO com outro nome”. O objetivo, entretanto, deixou de ser otimizar para robôs de busca. O foco deve estar em identificar o índice de visibilidade da marca, prepará-la para ser a resposta certa numa conversa inteligente e criar estratégias de evolução.
“Em muitas organizações, inteligência artificial é um assunto de TI. Em outras, é de inovação. Em quase nenhuma, é de branding. Isso é um erro estratégico. Hoje, o modo como a IA descreve sua marca é tão importante quanto sua campanha publicitária.”
Cintia Gonçalves, sócia da agência Suno United Creators e fundadora da consultoria estratégica Wiz&Watcher
Cintia Gonçalves, da Suno: ‘Quem não estiver construindo presença em GEO perderá relevância’
Divulgação

Débora Yuri - UOL para Marcas
Do supermercado ao “concierge inteligente”. Num momento de explosão das buscas por inteligência artificial generativa, a definição para a passagem do SEO (Search Engine Optimization) ao GEO (Generative Engine Optimization) é de Cintia Gonçalves, sócia da agência Suno United Creators e fundadora da consultoria estratégica Wiz&Watcher.
Para o setor, a mudança não é apenas tecnológica, mas principalmente no modo como os consumidores se relacionam com as marcas, diz a publicitária.
“Vamos pensar no SEO tradicional como um supermercado. As pessoas iam até lá, passeavam entre as prateleiras de opções e as marcas disputavam a atenção. Aquelas que estivessem na altura dos olhos — ou as que apareciam primeiro na lista de indicações do Google — tinham mais chance de ser escolhidas ou clicadas.
Já o GEO opera em uma lógica de concierge inteligente: o consumidor faz uma pergunta complexa e contextualizada, e a IA generativa entrega uma resposta pronta, com recomendação, justificativa e, frequentemente, o link direto para contratar ou comprar.”
Do SEO para o GEO: momento de transição entre eras
Estudos apontam para uma transformação acelerada. Segundo o relatório Digital 2026, da We Are Social/Hootsuite, 41% dos usuários de internet globais já usam ferramentas de IA generativa como fonte primária de informação, um salto de 18% em relação ao ano passado.
No Brasil, o índice sobe para 47%, impulsionado pela popularidade do WhatsApp com IA integrada.
Gonçalves compartilha três insights centrais sobre essa espécie de transição entre eras.
1- A pergunta mudou.
Se o usuário digitava “melhor tênis de corrida” no SEO, no GEO ele pergunta: “Sou corredor amador, tenho joelho sensível, corro em asfalto e meu orçamento é R$ 600. Qual tênis você recomenda e por quê?”.
“A IA não lista opções, ela escolhe e justifica. Sua marca precisa estar preparada para ser essa resposta, nesse nível de granularidade”, resume.
2- A métrica mudou.
O KPI deixou de ser apenas lugar no ranking ou CTR (click through rate). O indicador que emerge é o Citation Rate, já alçado ao posto de métrica de negócio — com qual frequência e em qual posição a marca é citada por IAs em respostas relevantes para o negócio.
Estudo da Gartner deste ano indica que 68% das jornadas de compra B2B já começam com uma resposta de IA generativa, não busca tradicional. Outro levantamento de 2026, este do Boston Consulting Group com 200 marcas globais, mostra que cada 10 pontos percentuais de avanço no Citation Rate correlaciona-se com um aumento médio de 7% na consideração de compra.
Marcas no quartil superior do indicador registraram crescimento de receita 2,3 vezes superior às do quartil inferior.
3- A autoridade mudou.
“No GEO, autoridade se constrói com evidências estruturadas: dados verificáveis, estudos de caso com números, certificações auditadas, depoimentos contextualizados. A IA não se impressiona com a idade do seu domínio, ela quer saber se você tem provas.”
De acordo com o relatório The State of Generative Engine Optimization 2026, da Forrester, marcas que adaptaram seu conteúdo para GEO tiveram crescimento médio de 47% em citações por IAs nos primeiros 12 meses.
No mesmo período, as que mantiveram apenas estratégias de SEO perderam 23% de visibilidade em respostas dos sistemas.
Top of context, o novo top of mind
A consultora destaca também que “top of context” virou o novo “top of mind”. E a diferença é profunda, acrescenta: ser lembrado espontaneamente quando alguém pensa em uma categoria envolve um jogo de exposição massiva, repetição e presença, que funcionou por décadas. No novo cenário, porém, ele tem uma limitação: ser genérico.
“Você pode ser a marca de refrigerante mais lembrada do país, mas isso não ajuda quando o consumidor pergunta à IA: ‘Qual bebida sem açúcar, com menos de 50 calorias e sabor cítrico combina com uma refeição leve de verão?’. Top of context significa ser a marca que a IA escolhe quando o prompt é específico, situacional e detalhado. É um jogo de relevância, não de presença massiva.”
Como criar conteúdo recomendado por modelos de IA
Para alcançar o top of context, as marcas precisam adotar três comportamentos fundamentais, segundo Gonçalves.
1- Mapear os “prompts de decisão” do setor.
Não adianta otimizar para palavras-chave genéricas. É preciso identificar as perguntas que levam à decisão de compra no mercado específico da marca. Ela dá exemplos reais: Qual tênis dura mais para quem trabalha 12 horas por dia em pé em piso de hospital? Como uma PME de 30 funcionários pode reduzir custos com maquininha sem perder confiança?
“Um case que ilustra bem é o da Nike, que mapeou 120 cenários de uso para tênis de corrida e criou conteúdo específico para cada um, desde ‘corrida em asfalto com joelho sensível’ até ‘primeira maratona em clima tropical’. O resultado, segundo a McKinsey: aumento de 57% em citações por IAs em recomendações de calçados esportivos.”
2- Criar conteúdo que responda essas perguntas com profundidade.
A IA busca dados comparativos, especificações técnicas contextualizadas, casos reais com resultados mensuráveis e limitações honestas. “Sim, admiti-las aumenta a confiabilidade algorítmica”, afirma a estrategista.
3- Estruturar esse conteúdo para ser “citável”.
Ignorar a estrutura dos dados é um dos principais erros da atualidade, ela ressalta. “Muitas marcas têm conteúdo excelente, mas em formatos que a IA não consegue processar bem: PDFs não indexáveis, imagens sem texto alternativo, tabelas em formato de imagem, informações críticas diluídas em parágrafos longos.”
As ferramentas precisam de dados estruturados: tabelas comparativas claras, FAQs com perguntas idênticas às que clientes reais fazem e formatos que máquinas processam facilmente — além de atualização constante. “Sem isso, mesmo o melhor conteúdo fica invisível. E conteúdo desatualizado é ignorado ou, pior, pode jogar contra”, diz.
“Neste ano, a Forrester analisou 10.000 respostas de inteligência artificial e descobriu que 78% das citações vinham de tabelas, FAQs, comparativos. A IA busca profundidade, especificidade e evidências.”
Confiança, humanização dos dados e a IA que alucina
A adoção da tecnologia também impacta a maneira de construir confiança de marca. Como a IA generativa pode “alucinar” — inventar informações, recomendar algo perigoso —, os modelos são treinados para priorizar fontes com baixo risco de desinformação, explica a sócia da Suno.
Dados auditados por terceiros, certificações reconhecidas, metodologias transparentes e histórico consistente de precisão reduzem esse risco.
“Confiança, para a IA, não é um valor aspiracional, é um critério de seleção algorítmica. Ela não se impressiona com slogans. Ela não se emociona com campanhas. Mas ela reconhece padrões de confiança.”
Outro conceito-chave é o da “humanidade verificável”, já que os sistemas valorizam reviews que contam histórias específicas.
“O tempo de ‘observar a IA’ acabou. Quem não estiver ativamente construindo sua presença em GEO nos próximos 12-18 meses perderá relevância em um canal que já representa mais de 40% das jornadas de descoberta.”
Fator Brasil traz desafios às marcas globais
O contexto Brasil muda algo para marcas globais? A publicitária é categórica na resposta: “Muda, e muito”. As particularidades do país vão do app usado por 99% da população conectada ao “jeitinho brasileiro”.
1- O WhatsApp como superapp de IA.
No segundo maior mercado do WhatsApp no mundo, a integração de IA generativa na plataforma está transformando o comportamento de busca. Ao contrário de países onde ela ocorre em interfaces dedicadas — ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity —, por aqui ela fica cada vez mais embutida na conversa cotidiana.
“Isso significa que marcas globais precisam adaptar sua estratégia de GEO para um ambiente onde a busca é conversacional, fragmentada e profundamente contextual”, explica Gonçalves.
2- O “jeitinho” encontra a IA.
O consumidor brasileiro é criativo, adaptável e social, ela observa.
“Ele não pergunta ‘Qual o melhor plano de celular?’, e sim ‘Qual plano não me deixa na mão quando acaba a franquia e ainda funciona no metrô?’. Marcas globais que tratam o Brasil com conteúdo genérico traduzido perdem feio para aquelas que entendem a granularidade do contexto local.”
3- Confiança é um ativo ainda mais crítico.
O país tem um dos índices mais altos de desconfiança institucional do mundo, revela o Edelman Trust Barometer 2026. Ao mesmo tempo, é um dos líderes no quesito confiança em “pessoas como eu”.
Daí nasce uma dinâmica única: quando alimentada com provas sociais autênticas — depoimentos, casos reais, reviews contextualizados —, a IA generativa pode se tornar uma ponte de confiança que a publicidade convencional não consegue construir.
4- Oportunidade em setores com baixa maturidade digital.
Com presença digital subotimizada no Brasil, setores como agronegócio, indústria de base e serviços financeiros tradicionais oferecem uma janela de oportunidade para quem implementar estratégias de GEO efetivas antes dos concorrentes locais.
Quem é o dono do tema IA & Marca?
Para a consultora, outro erro comum é tratar GEO como “SEO com outro nome”. O objetivo, entretanto, deixou de ser otimizar para robôs de busca. O foco deve estar em identificar o índice de visibilidade da marca, prepará-la para ser a resposta certa numa conversa inteligente e criar estratégias de evolução.
“Em muitas organizações, inteligência artificial é um assunto de TI. Em outras, é de inovação. Em quase nenhuma, é de branding. Isso é um erro estratégico. Hoje, o modo como a IA descreve sua marca é tão importante quanto sua campanha publicitária.”
Cintia Gonçalves, sócia da agência Suno United Creators e fundadora da consultoria estratégica Wiz&Watcher
Cintia Gonçalves, da Suno: ‘Quem não estiver construindo presença em GEO perderá relevância’
Divulgação

Débora Yuri - UOL para Marcas
Do supermercado ao “concierge inteligente”. Num momento de explosão das buscas por inteligência artificial generativa, a definição para a passagem do SEO (Search Engine Optimization) ao GEO (Generative Engine Optimization) é de Cintia Gonçalves, sócia da agência Suno United Creators e fundadora da consultoria estratégica Wiz&Watcher.
Para o setor, a mudança não é apenas tecnológica, mas principalmente no modo como os consumidores se relacionam com as marcas, diz a publicitária.
“Vamos pensar no SEO tradicional como um supermercado. As pessoas iam até lá, passeavam entre as prateleiras de opções e as marcas disputavam a atenção. Aquelas que estivessem na altura dos olhos — ou as que apareciam primeiro na lista de indicações do Google — tinham mais chance de ser escolhidas ou clicadas.
Já o GEO opera em uma lógica de concierge inteligente: o consumidor faz uma pergunta complexa e contextualizada, e a IA generativa entrega uma resposta pronta, com recomendação, justificativa e, frequentemente, o link direto para contratar ou comprar.”
Do SEO para o GEO: momento de transição entre eras
Estudos apontam para uma transformação acelerada. Segundo o relatório Digital 2026, da We Are Social/Hootsuite, 41% dos usuários de internet globais já usam ferramentas de IA generativa como fonte primária de informação, um salto de 18% em relação ao ano passado.
No Brasil, o índice sobe para 47%, impulsionado pela popularidade do WhatsApp com IA integrada.
Gonçalves compartilha três insights centrais sobre essa espécie de transição entre eras.
1- A pergunta mudou.
Se o usuário digitava “melhor tênis de corrida” no SEO, no GEO ele pergunta: “Sou corredor amador, tenho joelho sensível, corro em asfalto e meu orçamento é R$ 600. Qual tênis você recomenda e por quê?”.
“A IA não lista opções, ela escolhe e justifica. Sua marca precisa estar preparada para ser essa resposta, nesse nível de granularidade”, resume.
2- A métrica mudou.
O KPI deixou de ser apenas lugar no ranking ou CTR (click through rate). O indicador que emerge é o Citation Rate, já alçado ao posto de métrica de negócio — com qual frequência e em qual posição a marca é citada por IAs em respostas relevantes para o negócio.
Estudo da Gartner deste ano indica que 68% das jornadas de compra B2B já começam com uma resposta de IA generativa, não busca tradicional. Outro levantamento de 2026, este do Boston Consulting Group com 200 marcas globais, mostra que cada 10 pontos percentuais de avanço no Citation Rate correlaciona-se com um aumento médio de 7% na consideração de compra.
Marcas no quartil superior do indicador registraram crescimento de receita 2,3 vezes superior às do quartil inferior.
3- A autoridade mudou.
“No GEO, autoridade se constrói com evidências estruturadas: dados verificáveis, estudos de caso com números, certificações auditadas, depoimentos contextualizados. A IA não se impressiona com a idade do seu domínio, ela quer saber se você tem provas.”
De acordo com o relatório The State of Generative Engine Optimization 2026, da Forrester, marcas que adaptaram seu conteúdo para GEO tiveram crescimento médio de 47% em citações por IAs nos primeiros 12 meses.
No mesmo período, as que mantiveram apenas estratégias de SEO perderam 23% de visibilidade em respostas dos sistemas.
Top of context, o novo top of mind
A consultora destaca também que “top of context” virou o novo “top of mind”. E a diferença é profunda, acrescenta: ser lembrado espontaneamente quando alguém pensa em uma categoria envolve um jogo de exposição massiva, repetição e presença, que funcionou por décadas. No novo cenário, porém, ele tem uma limitação: ser genérico.
“Você pode ser a marca de refrigerante mais lembrada do país, mas isso não ajuda quando o consumidor pergunta à IA: ‘Qual bebida sem açúcar, com menos de 50 calorias e sabor cítrico combina com uma refeição leve de verão?’. Top of context significa ser a marca que a IA escolhe quando o prompt é específico, situacional e detalhado. É um jogo de relevância, não de presença massiva.”
Como criar conteúdo recomendado por modelos de IA
Para alcançar o top of context, as marcas precisam adotar três comportamentos fundamentais, segundo Gonçalves.
1- Mapear os “prompts de decisão” do setor.
Não adianta otimizar para palavras-chave genéricas. É preciso identificar as perguntas que levam à decisão de compra no mercado específico da marca. Ela dá exemplos reais: Qual tênis dura mais para quem trabalha 12 horas por dia em pé em piso de hospital? Como uma PME de 30 funcionários pode reduzir custos com maquininha sem perder confiança?
“Um case que ilustra bem é o da Nike, que mapeou 120 cenários de uso para tênis de corrida e criou conteúdo específico para cada um, desde ‘corrida em asfalto com joelho sensível’ até ‘primeira maratona em clima tropical’. O resultado, segundo a McKinsey: aumento de 57% em citações por IAs em recomendações de calçados esportivos.”
2- Criar conteúdo que responda essas perguntas com profundidade.
A IA busca dados comparativos, especificações técnicas contextualizadas, casos reais com resultados mensuráveis e limitações honestas. “Sim, admiti-las aumenta a confiabilidade algorítmica”, afirma a estrategista.
3- Estruturar esse conteúdo para ser “citável”.
Ignorar a estrutura dos dados é um dos principais erros da atualidade, ela ressalta. “Muitas marcas têm conteúdo excelente, mas em formatos que a IA não consegue processar bem: PDFs não indexáveis, imagens sem texto alternativo, tabelas em formato de imagem, informações críticas diluídas em parágrafos longos.”
As ferramentas precisam de dados estruturados: tabelas comparativas claras, FAQs com perguntas idênticas às que clientes reais fazem e formatos que máquinas processam facilmente — além de atualização constante. “Sem isso, mesmo o melhor conteúdo fica invisível. E conteúdo desatualizado é ignorado ou, pior, pode jogar contra”, diz.
“Neste ano, a Forrester analisou 10.000 respostas de inteligência artificial e descobriu que 78% das citações vinham de tabelas, FAQs, comparativos. A IA busca profundidade, especificidade e evidências.”
Confiança, humanização dos dados e a IA que alucina
A adoção da tecnologia também impacta a maneira de construir confiança de marca. Como a IA generativa pode “alucinar” — inventar informações, recomendar algo perigoso —, os modelos são treinados para priorizar fontes com baixo risco de desinformação, explica a sócia da Suno.
Dados auditados por terceiros, certificações reconhecidas, metodologias transparentes e histórico consistente de precisão reduzem esse risco.
“Confiança, para a IA, não é um valor aspiracional, é um critério de seleção algorítmica. Ela não se impressiona com slogans. Ela não se emociona com campanhas. Mas ela reconhece padrões de confiança.”
Outro conceito-chave é o da “humanidade verificável”, já que os sistemas valorizam reviews que contam histórias específicas.
“O tempo de ‘observar a IA’ acabou. Quem não estiver ativamente construindo sua presença em GEO nos próximos 12-18 meses perderá relevância em um canal que já representa mais de 40% das jornadas de descoberta.”
Fator Brasil traz desafios às marcas globais
O contexto Brasil muda algo para marcas globais? A publicitária é categórica na resposta: “Muda, e muito”. As particularidades do país vão do app usado por 99% da população conectada ao “jeitinho brasileiro”.
1- O WhatsApp como superapp de IA.
No segundo maior mercado do WhatsApp no mundo, a integração de IA generativa na plataforma está transformando o comportamento de busca. Ao contrário de países onde ela ocorre em interfaces dedicadas — ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity —, por aqui ela fica cada vez mais embutida na conversa cotidiana.
“Isso significa que marcas globais precisam adaptar sua estratégia de GEO para um ambiente onde a busca é conversacional, fragmentada e profundamente contextual”, explica Gonçalves.
2- O “jeitinho” encontra a IA.
O consumidor brasileiro é criativo, adaptável e social, ela observa.
“Ele não pergunta ‘Qual o melhor plano de celular?’, e sim ‘Qual plano não me deixa na mão quando acaba a franquia e ainda funciona no metrô?’. Marcas globais que tratam o Brasil com conteúdo genérico traduzido perdem feio para aquelas que entendem a granularidade do contexto local.”
3- Confiança é um ativo ainda mais crítico.
O país tem um dos índices mais altos de desconfiança institucional do mundo, revela o Edelman Trust Barometer 2026. Ao mesmo tempo, é um dos líderes no quesito confiança em “pessoas como eu”.
Daí nasce uma dinâmica única: quando alimentada com provas sociais autênticas — depoimentos, casos reais, reviews contextualizados —, a IA generativa pode se tornar uma ponte de confiança que a publicidade convencional não consegue construir.
4- Oportunidade em setores com baixa maturidade digital.
Com presença digital subotimizada no Brasil, setores como agronegócio, indústria de base e serviços financeiros tradicionais oferecem uma janela de oportunidade para quem implementar estratégias de GEO efetivas antes dos concorrentes locais.
Quem é o dono do tema IA & Marca?
Para a consultora, outro erro comum é tratar GEO como “SEO com outro nome”. O objetivo, entretanto, deixou de ser otimizar para robôs de busca. O foco deve estar em identificar o índice de visibilidade da marca, prepará-la para ser a resposta certa numa conversa inteligente e criar estratégias de evolução.
“Em muitas organizações, inteligência artificial é um assunto de TI. Em outras, é de inovação. Em quase nenhuma, é de branding. Isso é um erro estratégico. Hoje, o modo como a IA descreve sua marca é tão importante quanto sua campanha publicitária.”
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