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Universa lança manual de conduta para cobertura sobre violência de gênero

Imagem: Arte/UOL

A violência de gênero é um problema social, e sua cobertura jornalística é necessária para jogar luz ao tema e levantar questões que conscientizem o público e mobilizem políticas. Mas não raras vezes o próprio retrato dessas histórias na imprensa reproduz machismos e misoginia. Como realizar uma cobertura jornalística com empatia e sensibilidade? Como fazer reportagens evitando que vítimas e familiares revivam o trauma?

Essa inquietação, que faz parte do cotidiano da redação de Universa, foi o que levou à elaboração do “Manual Universa para Jornalistas: Boas Práticas na Cobertura da Violência Contra a Mulher”. O documento que está disponível gratuitamente online foi elaborado pela equipe de jornalistas da plataforma, e contou com a consultoria do Instituto Patrícia Galvão, ONG que atua na defesa do direito das mulheres, e da revista AzMina.

“Nosso principal objetivo é que as histórias de mulheres como Tatiane Spitzner, Sandra Gomide, Yasmin Costa dos Santos e as de outras vítimas de feminicídio que infelizmente virão, sejam contadas com empatia e de forma justa nas reportagens. Para que durante as apurações sobre esses e outros crimes contra a mulher, os jornalistas estejam atentos aos estereótipos sexistas que permeiam até a fala de juristas renomados, transformando vítimas de violência em rés”, afirma Dolores Orosco, editora-chefe de Universa.

O material traz, por exemplo, orientações sobre como fazer o primeiro contato com uma mulher vítima de violência, de forma respeitosa e empática. Questionar a mulher sobre quanto tempo passou apanhando sem denunciar, em si, é o tipo de pergunta que embute juízo de valor, por exemplo. O documento também oferece dicas para ouvir o outro lado, o agressor ou o Estado, que também é responsável quando uma mulher sofre uma agressão.

“Como equipe 100% feminina que somos, nos preocupamos em produzir um jornalismo cada dia mais ético, sensível e responsável, para que nossa atuação contribua efetivamente para o combate à violência contra a mulher”, ressalta Dolores.

O Manual destaca ainda que certas informações sobre a vítima devem ser evitadas nas reportagens. Isso porque a exposição desnecessária de detalhes — como a descrição da roupa usada pela mulher na cena do crime — pode alimentar julgamentos machistas, como o de culpabilizar a mulher pela violência que sofreu.

Há também uma questão de vieses nas reportagens que precisam ser revistos e evitados, segundo o Manual, como os casos em que o texto tenta justificar as ações do agressor, afirmando que ele cometeu uma violência motivado por ciúme ou porque estava com “a cabeça quente”, por exemplo.

“É o erro mais comum [da imprensa]: tentar justificar a violência contra a mulher, seja pelos sentimentos do agressor, como ciúme ou paixão, ou pelo comportamento da mulher, citando traição, sua roupa ou bebida”, afirma Helena Bertho, diretora de redação da revista AzMina. “Ciúme, paixão, amor, todos nós sentimos. Assim como há pessoas que traem, provocam, bebem, usam roupas dos mais diversos tipos. E nada disso é justificativa para que matemos uns aos outros.”

Com isso, a cartilha é um convite aos jornalistas a refletirem sobre o próprio trabalho. Como evitar uma cobertura machista ou mesmo acrítica sob o risco de reforçar uma cultura de violência? “São recomendações importantes para que se faça um bom jornalismo, mostrando a responsabilidade necessária ao se tratar do tema”, considera Katia Brembatti, uma das diretoras da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e professora na Universidade Positivo.